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Artigo: Me ajeite que eu lhe ajeito, por Valter Silva

Ao se iniciar a corrida eleitoral, como é chamada a arrelienta campanha pela disputa do poder, vemos uma incomum e intensa movimentação nas ruas, principalmente em localidades ainda marcadas pelo ranço coronelista das antigas oligarquias, onde se destacam personagens que teriam pouca ou nenhuma relevância para o resultado da eleição do candidato que apoiam, caso vivêssemos em uma sociedade norteada pelos princípios da soberania do povo, respaldada pela democracia social; sem discriminações de sexo, de cor, de religião, de ideologia e, em suma, sem diferenças tão acentuadas no nível de vida de seus membros.

Temos, porém, uma sociedade dita democrática, mas, que só funciona “democraticamente” durante as eleições para os principais cargos de governo, de modo que os partidos possam se revezar no poder. Contudo, as sedutoras maravilhas do século XXI existem apenas para uma infinitesimal parte privilegiada de sociedade; enquanto que os salários baixos, o desemprego, ou até mesmo o subemprego atingem um grande contingente da desassistida população, especialmente os jovens, que em tal contexto, não têm qualquer perspectiva de crescimento social ou cultural, porque, nele, assistem a um contumaz comportamento dos adultos, inclusive dos seus pais, que valorizam o último grito da moda em vez dos princípios da democracia social ou da autonomia do município.
Em face a essa postura egoísta, que prevalece na sociedade como um todo, temos, lamentavelmente, uma falsa democracia, apenas política, que transforma as eleições em um vicioso balcão de interesses pessoais onde indivíduos de diferentes segmentos vendem ou barganham seus votos pensando unicamente em “se dar bem”, bastando, para tanto, jurarem fidelidade aos candidatos que mercadejam alianças no sujo leilão de votos, ou do “quem dá mais”, que quebra a fé pública e faz com que os partidos e também os políticos que adotam tal expediente percam a honra e a própria dignidade. Entretanto, isso não lhes traz nenhum constrangimento, porque todos “entendem” que o poder custa, mas também rende e, assim, ser fiel é o único e sagrado princípio que deve prevalecer até a conquista ou permanência no poder.

Nesse cenário regido pela submissão parece que voltamos à Idade Média, a partir do século V d. C, ocasião em que o poder político estava nas mãos dos grandes proprietários de terras aos quais o povo recorria para pedir proteção por intermédio de um ritual onde o futuro vassalo ajoelhava-se perante aquele que se tornava seu senhor, ou suserano, e passava a se considerar de sua confiança, sendo que na investidura, último ato dessa celebração, recebia do senhor um ramo ou algum objeto que representasse a doação de um feudo em troca da proteção do manso senhorial. O vassalo, em tal sistema, devia várias obrigações, inclusive a do serviço militar e quanto maior o número de vassalos, maior o prestígio do suserano numa sociedade que era dividida em três categorias. A primeira delas era o Clero, que fazia a intermediação entre os homens e Deus, missão especial e de grande estima naquela época. Na terceira categoria estavam os servos, camponeses incumbidos de trabalhar para o sustento das camadas privilegiadas, e também os vilões e os comerciantes; enquanto que a segunda categoria, conhecida como nobreza leiga, era composta por aqueles que combatiam, encarregados da defesa do feudo, dos fracos e das mulheres, devendo possuir para tanto qualidades indispensáveis como a honra, a bravura e o heroísmo. Eram os chamados cavaleiros medievais que também tomavam parte em combates, corridas e lutas com espadas.

Comparando este período medieval aos nossos dias, os cavaleiros de hoje são justamente aquelas tais personagens citadas anteriormente, representadas na vida real por meros servidores públicos chegados a regalias e, que, por esse motivo, matam e morrem para defender seu senhor, ou melhor, seu venerado candidato a prefeito. Também muitos parentes, amigos fiéis e até bajuladores desocupados tornam-se bons cavaleiros nos tempos de eleição, participando de foguetórios e de rega-bofes em diferentes localidades sempre com muita bebedeira, jogos e festas, além de protagonizarem ativamente as “arrelias e as tretas” que permeiam a luta pelo poder. Como investidura tais cavaleiros recebem não mais um ramo ou um objeto qualquer como na sociedade medieval, mas, sim, dinheiro vivo por ajudarem heroicamente na conquista ou na manutenção do “manso senhorial” dos dias de hoje que é a prefeitura, sempre bastante cobiçada por outros senhores e vassalos que por serem “farinha do mesmo saco” a querem qualquer custo . Portanto, durante as eleições, enquanto uns poucos rezam e muitos trabalham para garantir o sustento e a boa-vida de todos (como os professores enfermeiros guardas e garis) os mais prestigiados são “justamente” aqueles que militam no exaustivo combate de garantir os benefícios ao senhor prefeito e o “favor-e-cimento” a toda fiel vassalagem que o apoia. Então, por seus ”feitos de bravura” e de coragem os cabos eleitorais, ou cavaleiros contemporâneos, recebem prestigio e um feudo onde, quiçá, amanhã, orgulhosos de si mesmos, construirão suas imponentes fortalezas; afinal, “é dando que se recebe”, sobretudo, se a rural não atolar!

Valter Silva - Pedagogo
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