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Carta Aberta aos Professores - Por Valter Silva

Carta Aberta Aos Professores

Agosto de 2015.

Fruto de uma época marcada pelo individualismo, os desejos egoístas e a preocupação cada vez menor com o bem-estar alheio são marcas do nosso atual momento histórico que afetam diretamente tanto as relações familiares quanto as sociais. Lamentavelmente, é comum vermos esta postura individualista também no âmbito educacional que, ao invés de favorecer o desenvolvimento de uma sociedade democrática regida pela criticidade, transforma o estudante em um cliente especial, que deve estar satisfeito e sempre ter razão, arruinando, desse modo, a respeitabilidade do professor, sempre culpado por todo fracasso pedagógico desses falsos estudantes que vivenciam uma existência medíocre, sem qualquer senso crítico ou responsabilidade e em um estado de permanente infantilismo.

A banalização da figura do professor o torna vítima constante de assédio moral e de pressões institucionais por parte da secretaria de educação, direção escolar e coordenação para que ele, professor, possa satisfazer incondicionalmente todos caprichos contidos em uma prática pedagógica espetacularizada, sobretudo na rede municipal de ensino, que tem por objetivo tão somente agradar os alunos pobres que, por sua vez, enxergam o espaço educacional somente como local de lazer ou ponto de encontro social considerando a vida estudantil  um enfado insuportável que mal os ensina a soletrar e a escrever precariamente. O professor, neste contexto, encontra-se na necessidade de disputar a atenção de alunos “tantalizados” pelo celular e por outros apetrechos eletrônicos. Para tanto, é necessário que o docente se transforme em animador de auditório ou quem sabe até em palhaço uma vez que se tornou “inimigo” das mentes fechadas, prisioneiras de um universo limitado pela tela, para onde suas próprias vidas foram deportadas, e que só conhecem interlocutores fictícios ou virtuais.

Além disso, são cada vez mais frequentes os casos em que alunos descarregam suas frustrações existenciais nos professores através de injúrias ou mesmo de agressões físicas sem que quaisquer medidas corretivas sejam adotadas para instituir o devido respeito para com a categoria docente. De forma absurda, porém, quando é o professor que adverte ou mesmo que “exagera ”em sua “indigna-ação” pelo vandalismo e desrespeito dos alunos, logo aparecem coordenadores e/ou diretores,  tachando este professor como carrasco ou o assediando com interrogatórios humilhantes como se fossem  verdadeiros advogados em defesa dos seus “excluídos clientes”, eternas vítimas da sociedade, que ainda não têm a exata noção de suas atitudes e  que, enfim, precisam ser ajudados, sobretudo, com notas gratuitas,  dadas pela participação deles em eventos “culturais e de lazer” onde imperam a deseducação e o mau gosto de músicas marcadas pela imoralidade; cabendo ainda ao professor apadrinhar e se responsabilizar ,até mesmo por maus alunos, e contribuindo, inclusive, financeiramente, como se o seu salário fosse ao menos compatível para bancar tais disparates.
Neste comportamento clientelista que marca a ideologia de um “Brasil Carinhoso”, a juventude alienada e rebelde mostra toda a fragilidade de sua vida familiar e também a falta de aptidão educacional de seus pais, autoritariamente frouxos, que abandonam seus filhos à própria sorte ou julgam que educá-los é obrigação exclusiva do professor, enquanto mergulham nos vícios ou se preocupam acima de tudo com a manutenção de seus status pessoais e, portanto, só aparecem na escola para pegar o boletim ou para reclamar dos professores que “magoam” seus inocentes filhinhos, mesmo quando estes não tenham se comportado de maneira adequada a quem frequenta uma instituição educativa. O professor, assim, é novamente objeto de inquisição, pois o cliente jamais pode ser constrangido por quem quer que seja. Por outro lado, na dimensão político-partidária, a educação tornou-se uma mercadoria de grande rentabilidade, um filão efervescente cuja exploração se dá durante as eleições; no levantar das bandeiras, nas caminhadas e carreatas da vida de onde surgem os secretários de educação e outros membros que dirigem as degradadas instituições educacionais públicas. Daí surgem também professores que “são do grupo”, sendo que muitos, de todas essas categorias, não apresentam a devida competência para exercer os cargos que ocupam somente por viciosa agregação política ou por apadrinhamento e nunca por verdadeira meritocracia.

Como reflexo desse cultural fisiologismo, os professores que lutam por seus direitos como pessoas autônomas e livres; enfim, como cidadãos e não como súditos, que significa sob o dito de alguém, são novamente censurados pelo “seu mal!” ou rotulados como “azedos”, ultrapassados e até  soberbos, no sentido pejorativo, é claro; são também substituídos na disciplina que lecionam para “arrumar a vida” de colegas aliados de secretários ou  diretoras e ,por fim, excluídos através da forma de tratamento diferenciada, tanto pela direção quanto por parte dos membros do corpo docente. Isto, quando não é possível  removê-lo da escola em que atuam como persona non grata ou como forma de perseguições políticas.

Os professores-cidadãos, certamente, são tratados dessa forma, porque ao buscarem o esclarecimento, lutando contra tudo, contra todos e até contra motivos pessoais egoístas, contrariam muitas pessoas, inclusive colegas de profissão que, em uma nociva prática política, aprenderam a ver quem luta como inferior, atrasado ou selvagem! Em suma, como alguém ”não-igual, digno de uma boa “correiada” no lombo para aprender que “Manda quem pode...”Estes fanáticos ou ambiciosos indivíduos, incapazes de se re-educarem ,ainda não se deram conta de sua menoridade, escolhida livremente, que os fazem perder a  capacidade de fazer uso do entendimento como pessoas esclarecidas que agem e pensam sem a direção de um suserano, ou senhor. 

Por este motivo, reduzem os que lutam pelo bem-estar e pelos direitos coletivos a uma coisa: a não seu semelhante! a “apenas” um professor! Infelizmente, em sua tosca cegueira eles desconhecem que o principal elemento na figura humana do professor é o cidadão e que se o professor não tiver em si a figura forte do cidadão, acaba se tornando instrumento para qualquer dominação, seja ela democrática ou totalitária! Paradoxalmente, são estas alienadas  criaturas que têm vez e voz na pátria educadora do Brasil!

Por: Valter Silva – Pedagogo 
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